Dependências: compreender para reconhecer
- Joana Pereira

- 14 de jul.
- 3 min de leitura
As dependências são uma condição de saúde mental que afeta milhões de pessoas em todo o mundo e que pode ter um impacto significativo na vida pessoal, familiar, social e profissional. Apesar de ainda existirem muitos estigmas associados, é importante compreender que uma dependência resulta da interação de fatores biológicos, psicológicos e sociais.

De acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM-5), as perturbações por uso de substâncias caracterizam-se por um padrão problemático de consumo que conduz a sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento da pessoa. O diagnóstico e a gravidade são determinados pelo número de critérios presentes durante os últimos 12 meses, incluindo a perda de controlo sobre o consumo, o desejo intenso de consumir (craving), o incumprimento de responsabilidades pessoais, familiares ou profissionais e a persistência do consumo apesar das consequências negativas. Importa ainda referir que existem dependências que não envolvem o consumo de substâncias psicoativas, designadas dependências comportamentais, como, por exemplo, o jogo.
O desenvolvimento de uma dependência é um processo complexo e multifatorial, resultando da interação entre diferentes fatores que podem aumentar a suscetibilidade, desencadear o problema, contribuir para a sua manutenção ou, pelo contrário, favorecer a recuperação. Importa salientar que a presença de um ou mais fatores de risco não significa, por si só, que uma pessoa desenvolverá uma dependência, tal como a ausência desses fatores não elimina completamente essa possibilidade.
Entre os fatores predisponentes, isto é, aqueles que aumentam a vulnerabilidade para o desenvolvimento de uma dependência, encontram-se a predisposição genética, traços de impulsividade, dificuldades na regulação emocional, experiências traumáticas, a presença de outras condições de saúde mental e contextos familiares ou sociais desfavoráveis. Existem também fatores precipitantes, que correspondem a acontecimentos ou circunstâncias capazes de desencadear o início de uma dependência. Alguns exemplos incluem situações de stress intenso, perdas significativas, conflitos interpessoais, alterações importantes na vida ou períodos de maior sofrimento emocional. Após o desenvolvimento da dependência, determinados fatores podem contribuir para a sua manutenção. Entre estes encontram-se o alívio temporário do sofrimento proporcionado pelo consumo ou comportamento, o desejo intenso de consumir (craving), a presença de sintomas de abstinência, a influência do contexto social, os hábitos adquiridos e a dificuldade em desenvolver estratégias mais adaptativas para lidar com as emoções e os desafios do quotidiano.
Por outro lado, existem fatores protetores, que reduzem o risco de desenvolvimento de uma dependência e podem facilitar o processo de recuperação. Entre eles destacam-se o apoio familiar e social, relações interpessoais positivas, boas competências de regulação emocional, estratégias de coping adaptativas e ambientes seguros e estruturados.
Reconhecer precocemente os sinais de alerta pode fazer toda a diferença. Alguns indicadores incluem a perda de controlo sobre o consumo ou comportamento, a preocupação persistente com o consumo ou com determinada atividade, o abandono de interesses anteriormente valorizados, alterações de humor, isolamento social, dificuldades no desempenho escolar ou profissional, conflitos familiares, problemas financeiros e a continuação do consumo ou comportamento apesar das consequências negativas.
Se reconhece alguns destes sinais em si ou em alguém próximo, é importante saber que a ajuda especializada pode fazer uma diferença significativa. A intervenção psicológica permite compreender os fatores que contribuem para o comportamento aditivo, desenvolver estratégias para lidar com as dificuldades emocionais e promover mudanças sustentáveis. Em muitos casos, uma abordagem multidisciplinar, envolvendo psicologia, psiquiatria e o apoio da família, pode potenciar a
recuperação.
A recuperação é possível, e procurar ajuda é o primeiro passo para a mudança.
Estamos aqui.




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