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Aprender a comunicar: porque discutimos tão mal?

  • Foto do escritor: Andreia Rodrigues
    Andreia Rodrigues
  • 8 de ago.
  • 3 min de leitura

Acho que já todos nós já tivemos uma fase na nossa vida em que pensávamos mais recorrentemente: “não consigo falar sobre isso sem que vire uma discussão terrível”. Este pensamento é comum, é normal, é humano. Há fases na nossa vida em que simplesmente algo nos impede de abordar um determinado assunto, seja porque pode colocar em causa a nossa relação amorosa, o nosso trabalho, as nossas amizades ou dinâmica familiar.


A verdade é que discutimos mal porque ninguém nos ensinou a comunicar bem! Na escola aprendemos matemática, história, geografia, mas ninguém nos explica: "Quando alguém te critica, o teu corpo vai entrar em alerta e, por vezes, vais sentir-se atacado e é importante aprenderes a lidar com isto".


É claro que, dada a minha profissão, normalmente tenho apenas uma visão unilateral. Limito-me a ouvir a perspetiva de quem me relata a situação, mas a realidade é que numa discussão há sempre dois lados. Aquilo que eu ouço é a narrativa de uma pessoa, muitas vezes magoada ou frustrada, mas mesmo com esta condição, noto padrões muito claros que se repetem constantemente: quando começamos uma discussão, especialmente sobre algo que nos afeta emocionalmente, o nosso corpo entra numa resposta de stress. 


O nosso sistema nervoso ativa-se e preparamo-nos para a luta ou para a fuga. O sangue sai do córtex pré-frontal, que é responsável pelo pensamento lógico, e vai para as amígdalas cerebrais, que gerem o medo e a agressividade. Isto significa que, literalmente, deixamos de pensar e começamos a reagir! Neste estado, não é de estranhar que as coisas saiam todas erradas: dizemos coisas que não pretendíamos dizer; ouvimos coisas que a outra pessoa nem sequer estava a tentar comunicar… basicamente é como se houvesse um jogo do telefone estragado a acontecer em tempo real.


Regra geral, as discussões começam com uma preocupação que é legítima, mas que rapidamente escalam para generalizações: "nunca me ouves", "fazes sempre isto", "ninguém me entende". Estas palavras absolutas como "nunca" e "sempre" são uma bandeira vermelha! Deixam a outra pessoa na defensiva imediatamente. 


Outro padrão que noto é confundirmos comunicação com vitória, ou seja, as pessoas entram numa discussão a pensar que têm de "ganhar", de provar que têm razão, mas isto transforma a conversa num combate. Quando o objetivo é ganhar, a outra pessoa vira o inimigo, e quando alguém é o nosso inimigo, não o ouvimos de verdade... ouvimos apenas o que procuramos para nos defendermos.


O que realmente falta é a empatia e a escuta genuína. E não falo de “ouvir apenas com os ouvidos”, falo de escuta genuína. Aquela onde a pessoa para, sente curiosidade sobre o que o outro está realmente a sentir, e tenta compreender o mundo através dos olhos dele. Isto é extraordinariamente difícil porque implica, por momentos, deixarmos de lado o que nós sentimos. 


Falta também a vulnerabilidade. Quando alguém nos critica ou discorda de nós, a reação natural é endurecermos, mas a vulnerabilidade, aquela onde dizemos "Isto magoou-me" ou "Tenho medo que não me compreendas", é a mais poderosa.


Para melhorar, precisamos primeiro de reconhecer que discussões não são inimigas: são oportunidades. São momentos onde temos a possibilidade de nos compreendermos melhor, mas, para isto funcionar, temos de mudar a intenção. 


Quando sentires que a discussão está a escalar, sai. Literalmente. Vai fazer um passeio de cinco minutos… Deixa o seu sistema nervoso acalmar e depois regressas. 

Pratica a escuta reflexiva: quando alguém terminar de falar, em vez de responderes logo, tenta refletir sobre o que ouviste: "Se entendi bem, o que te preocupa é...". Isto muda tudo! De repente, a pessoa sente-se ouvida e reduz a defensiva. 


E finalmente, lembra-te que, por trás de cada comportamento problemático que vês na outra pessoa, há uma emoção. Talvez seja medo, talvez seja insegurança, talvez solidão. Se conseguires tocar nesse lugar verdadeiro, a discussão deixa de ser uma luta e passa a ser uma ponte.


Não te vou dizer que isto é fácil, porque não é… Mas é possível. Tenho visto transformações incríveis em pessoas que decidiram aprender a comunicar de forma diferente… ou consciente!


E que diferencia estas pessoas é simplesmente que aceitaram que o modo antigo (ou o que aprenderam ao longo do crescimento) não funcionava e decidiram tentar outra coisa. Discutimos mal porque nunca aprendemos a fazer diferente, mas a boa notícia é que isto pode mudar com um pouco de autoconsciência, vontade e prática. 


A comunicação é uma habilidade, e como todas as habilidades, pode ser aprendida e melhorada e, o primeiro passo, é admitir que há algo a mudar.


 
 
 

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