O silêncio da endometriose
- Ana Marques

- 16 de abr.
- 3 min de leitura
A endometriose é uma doença crónica que afeta aproximadamente 10% da população feminina em idade reprodutiva (OMS, 2023). Apesar de ser cada vez mais reconhecida, continua frequentemente a ser incompreendida. Trata-se de uma condição que se caracteriza pelo crescimento de tecido semelhante ao endométrio fora do útero, o que pode provocar inflamação, dor e, em alguns casos, infertilidade. No entanto, o seu impacto vai muito além do físico, afetando profundamente a saúde mental e emocional de quem convive com ela, muitas vezes vivido em silêncio.
Este silêncio começa, frequentemente, antes mesmo do diagnóstico. Ao longo de anos, muitas mulheres são levadas a acreditar que “ter dores menstruais é normal”, um mito que contribui para a desvalorização da sua experiência. Entre dúvidas, minimizações e respostas tardias, instala-se um sofrimento silencioso, onde a dor não é apenas sentida, mas também questionada. A dor vai-se infiltrando na vida diária, interferindo com o trabalho, com as relações, com a intimidade e com a forma como a mulher se vê a si própria.
Com o tempo, este silêncio, torna-se pesado, trazendo consigo frustração, dúvida, incompreensão e uma sensação de solidão. Este conjunto de fatores, impacta, inevitavelmente, a saúde mental de quem vive com esta condição.
Neste sentido, Chaman-Ara, Bahrami e Bahrami (2017) referem que sintomas como a dor pélvica crónica e a infertilidade tendem a gerar sintomatologia depressiva, ansiedade e stress. A investigação destaca que o diagnóstico tardio e a natureza crónica da doença resultam em graves prejuízos económicos e sociais, reduzindo a produtividade e afetando as relações familiares.
Este silêncio e sensação de incompreensão, estende-se, naturalmente, às relações. Viver com endometriose implica lidar com uma dor imprevisível, fadiga e limitações que nem sempre são visíveis aos olhos dos outros. Perante isto, acumulam-se os planos cancelados e ausências que podem ser mal interpretadas. Explicar torna-se demasiado cansativo, e emanam, assim, sentimentos de culpa e o isolamento.
Nas relações amorosas, este impacto faz-se sentir de uma forma ainda mais particular. A dor no contexto de intimidade pode gerar ansiedade, evitamento e insegurança. Falar sobre o assunto nem sempre é fácil, e o silêncio pode surgir como uma forma de contornar o desconforto. Desta forma, podem reforçar-se sentimentos de culpa, inadequação e consequente fragilização da autoestima.
A possibilidade de infertilidade acrescenta uma camada adicional a este sofrimento. Quando existe o desejo de engravidar, podem emergir sentimentos de frustração, medo e até de fracasso. Trata-se, muitas vezes, de um processo vivido em silêncio, não apenas pela dificuldade em conceber, mas também pela confrontação com um futuro idealizado que se torna incerto. Este percurso pode ser marcado por vergonha ou culpa, frequentemente reforçadas por pressões sociais e culturais associadas à maternidade, levando muitas mulheres a experienciar este sintomas de forma solitária.
Assim, demonstra-se essencial reconhecer e validar o impacto da endometriose. O acompanhamento psicológico pode ajudar a desenvolver estratégias para lidar com a dor, com a imprevisibilidade dos sintomas e com as emoções que surgem pelo caminho. Aprender a ouvir o corpo e a cuidar da mente são passos fundamentais para recuperar equilíbrio e qualidade de vida.
Simultaneamente, o envolvimento da família e dos parceiros neste processo é essencial. Quando há compreensão e validação, o silêncio deixa de ser um lugar de isolamento e transforma-se num espaço de presença e compaixão.
Em suma, a endometriose é uma condição real e complexa, com impacto físico e emocional. Ouvir o corpo, pedir ajuda e validar a dor são atos de autocuidado e coragem. É, por isso, importante relembrar que cuidar da saúde mental é também cuidar do corpo porque ambos são indissociáveis.
Chaman-Ara, K., Bahrami, M. A., & Bahrami, E. (2017). Endometriosis Psychological Aspects: A Literature Review. Journal of Endometriosis and Pelvic Pain Disorders, 9(2), 105–111. https://doi.org/10.5301/jeppd.5000276
World Health Organization. (2023, 24 de março). Endometriosis. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/endometriosis





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