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Quando Comer é uma Luta Silenciosa: Trauma e Adição Alimentar

  • Foto do escritor: Andreia Rodrigues
    Andreia Rodrigues
  • 22 de jan.
  • 3 min de leitura

Por vezes, o corpo procura alívio onde a alma não encontra voz. E entre a mastigação compulsiva e o silêncio interior, reside uma verdade frequentemente negligenciada: comer pode tornar-se um gesto de sobrevivência emocional. Esta constatação emerge com profundidade no estudo Maladaptive Eating Behaviors and Childhood Trauma: A Focus on Food Addiction (Legendre et al., 2022), que evidencia a ligação entre experiências traumáticas precoces e padrões alimentares desorganizados, nomeadamente a adição alimentar.


Adição alimentar (embora ainda ausente dos manuais psiquiátricos oficiais) surge aqui como um marcador clínico robusto de sofrimento psíquico, especialmente quando coexistente com outras manifestações como a compulsão alimentar ou os episódios de grazing (comer em pequenas quantidades de forma contínua). O estudo revela que determinadas formas de trauma infantil, como a negligência emocional, o abuso psicológico, a vitimização por pares e o abuso físico, estão significativamente correlacionadas com esta adição.

Importa sublinhar que o termo “adição alimentar” não se refere apenas a um apetite desregulado, mas à presença de um impulso compulsivo, por vezes devastador, em torno da comida (especialmente alimentos altamente palatáveis), processados e ricos em gordura ou açúcar. Este comportamento pode ser lido como uma tentativa de regulação emocional, uma âncora somática perante a desorganização afetiva que certas vivências precoces dão.


Entre os dados mais impactantes do estudo está a constatação de que o trauma explica, por si só, cerca de 7% da variância da adição alimentar, mesmo quando outras variáveis como depressão ou compulsão alimentar são consideradas. Embora esta percentagem possa parecer modesta, representa uma marca profunda e silenciosa que se inscreve no corpo e atravessa o tempo. A infância não passa; persiste.


De modo surpreendente, e profundamente significativo, a vitimização por pares (como o bullying, o isolamento ou a humilhação entre pares) apresenta uma correlação com a adição alimentar tão relevante quanto o abuso emocional. A agressividade entre pares, muitas vezes naturalizada, banalizada ou ignorada, revela-se aqui como uma forma subtil de trauma relacional, com efeitos prolongados na construção da identidade e nos padrões de autocuidado.

É essencial que o trabalho clínico com pessoas que lutam com a alimentação vá para além da contagem de calorias, da análise do peso ou da gestão de porções. O alimento, neste contexto, é símbolo. E é sobre esse símbolo que recai o trabalho do psicólogo: na escuta do sentido e na decifração do gesto. Comer compulsivamente pode ser uma tentativa desesperada de preencher um vazio, de silenciar uma dor antiga, de sobreviver a uma memória corporal ainda não simbolizada.


Que lugar damos ao trauma quando escutamos um corpo que come demais, ou de forma ininterrupta? Que escuta é possível quando percebemos que o problema não está apenas no que se come, mas no que faltou (e continua a faltar) fora do prato?

Neste estudo, a adição alimentar é apresentada não apenas como uma perturbação, mas como uma lente: permite aceder à severidade do sofrimento psicológico com rapidez e precisão. Do ponto de vista clínico, torna-se uma porta de entrada valiosa para a compreensão das experiências prévias que moldam o presente alimentar do sujeito. Mais do que patologizar o ato de comer, trata-se de contextualizá-lo.


O acompanhamento clínico de comportamentos alimentares disfuncionais exige, por isso, uma atenção especial à história não contada, às ausências precoces, à linguagem que se formou antes mesmo da fala. A comida não é uma adversária. Por vezes, é apenas o que resta… É o último refúgio.

No campo terapêutico, a integração de abordagens sensíveis ao trauma, o reconhecimento da complexidade do comportamento alimentar e a escuta ética da dor são caminhos possíveis. Não para recuperar ninguém, pois o tempo não volta, mas para possibilitar que, no espaço da relação, algo possa, enfim, ser transformado.


 
 
 

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