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Consegues mesmo saber quando alguém está a mentir?

  • Foto do escritor: Andreia Rodrigues
    Andreia Rodrigues
  • 1 de abr.
  • 3 min de leitura

Há uma ideia muito sedutora sobre a mentira, a de que conseguimos apanhá-la facilmente com um desvio do olhar, uma mão inquieta ou uma resposta mais hesitante, mas a psicologia mostra-nos que a realidade é muito mais complexa e muito menos cinematográfica.


A mentira é um comportamento profundamente humano, presente desde cedo no desenvolvimento e usado ao longo da vida por razões tão diversas como evitar punições, proteger relações, escapar ao embaraço, causar boa impressão ou simplesmente gerir a imagem que os outros constroem de nós. No entanto, para que exista mentira, tem de haver intencionalidade, isto é, a pessoa tem de saber que aquilo que está a transmitir não corresponde à verdade e fazê-lo de propósito, com a intenção de enganar.


As crianças começam a mentir deliberadamente por volta dos quatro anos, o que mostra que este não é um comportamento estranho à natureza humana, mas antes uma capacidade social que se vai refinando com a experiência. À medida que crescemos, mentir deixa de ser apenas uma tentativa básica de fugir a uma consequência e passa a envolver estratégias mais subtis, mais calculadas e, muitas vezes, mais difíceis de identificar, incluindo omissões, exageros, meias-verdades, narrativas cuidadosamente construídas e até verdades ditas de forma a induzir em erro.


Do ponto de vista psicológico, mentir não é apenas dizer o “contrário da verdade”, é construir uma versão alternativa da realidade e mantê-la coerente mesmo sob pressão, o que exige esforço emocional, cognitivo e comportamental, porque quem mente pode sentir medo de ser descoberto, culpa pelo que omite ou até entusiasmo por conseguir enganar, ao mesmo tempo que tem de controlar o que diz, o que mostra no rosto e no corpo, o que já contou e o que ainda lhe falta responder.


Durante muito tempo, acreditou-se que a mentira se denunciava facilmente no corpo, mas essa ideia é, em grande parte, um mito, porque o nervosismo não é sinónimo de mentira e pessoas honestas também hesitam, também desviam o olhar ou ficam rígidas quando estão sob pressão, enquanto mentirosos experientes podem parecer perfeitamente tranquilos, o que confirma aquilo que a investigação tem mostrado de forma consistente: não existe um sinal único, universal e infalível da mentira, mas sim padrões e combinações de comportamentos que podem ou não estar associados ao engano, dependendo da pessoa, do contexto e da situação.


Num estudo da Universidade de Coimbra, no âmbito da Psicologia Clínica Forense (Rodrigues, 2024 ), analisou-se precisamente como diferentes grupos avaliam relatos verdadeiros e falsos, em vídeos com e sem som, e os resultados mostram que a deteção da mentira não depende de uma pista isolada, mas da leitura integrada de sinais verbais e não verbais, que variam consoante o contexto e a experiência de quem observa. É por isso que detetar mentiras exige mais do que intuição, exige leitura do comportamento, atenção ao contexto e sobretudo ponderação, porque uma pessoa pode estar nervosa por estar a mentir, mas também por estar intimidada, envergonhada ou ansiosa, e pode falar menos porque está a inventar, mas também porque está cansada, desconfortável ou a tentar organizar melhor a resposta.


No Dia das Mentiras, talvez o mais importante seja este lembrete: não somos tão bons a apanhar mentiras como gostamos de pensar, mas também não somos tão ingénuos como às vezes imaginamos, e entre a desconfiança e a ingenuidade, o desafio está em observar melhor, pensar com mais rigor e resistir à tentação de transformar um gesto isolado numa prova absoluta.

 

 
 
 

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