A autocompaixão
- Ana Marques

- 6 de jul.
- 3 min de leitura

Há momentos em que cometemos um erro e a reação interna é quase imediata. Surge a voz crítica, a vergonha, a culpa e a dificuldade em persistir, porque a crença de que "não vale a pena" ecoa mais alto. É precisamente nestes momentos que se torna relevante compreender o papel da autoestima e da autocompaixão na forma como lidamos com o erro.
A autoestima é frequentemente percecionada como um objetivo, algo que se atinge, uma meta a alcançar. É frequentemente vista como um escudo protetor face à autocrítica, contra a fragilidade. Em muitos aspetos, uma autoestima saudável é importante para o bem-estar psicológico. Contudo, existe uma limitação importante: a autoestima tende a ser condicional. Sustenta-se mais facilmente quando as coisas correm bem, isto é, enquanto há desempenho, aprovação, comparação favorável. Quando surge a falha, essa perceção positiva de si próprio pode tornar-se mais frágil.
A autocompaixão parte de um lugar diferente. Não depende de uma avaliação positiva de quem somos nem exige que sejamos bem-sucedidos para merecermos compreensão. É, antes, uma postura empática e compassiva perante o próprio sofrimento.
Segundo Kristin Neff a autocompaixão integra três componentes fundamentais: estar atento e aberto ao próprio sofrimento, a capacidade de responder a esse sofrimento com gentileza e compreensão e o reconhecimento que o sofrimento é parte da experiência humana. E esta postura não opera apenas no plano do pensamento, manifesta-se sobretudo no tom da nossa voz interna, na disponibilidade para permanecer no desconforto e na capacidade de não transformar um erro numa definição de quem somos.
A principal diferença entre autoestima e autocompaixão reside precisamente na sua natureza. A autoestima necessita, em maior ou menor grau, de determinadas condições para se manter. A autocompaixão, pelo contrário, pode estar presente precisamente quando essas condições falham. Pode surgir quando um projeto corre mal, quando uma relação termina ou quando não correspondemos às expectativas que criámos para nós próprios. É precisamente quando a autoestima vacila que a autocompaixão pode constituir uma forma mais adaptativa para lidar com a adversidade.
Importa, contudo, dismistificar uma ideia erradamente associada à autocompaixão: a de que ser autocompassivo significa ser permissivo consigo próprio ou aceitar comportamentos inaceitáveis. Contudo, ser autocompassivo não significa desculpar tudo o que fazemos nem evitar a responsabilidade pelos nossos comportamentos. A autocompaixão aproxima-nos da dor e do erro com abertura suficiente para os compreender, sem que isso implique julgamento ou autopunição.
Paradoxalmente, esta atitude facilita a mudança. Assim, quando o erro deixa de ser vivido como uma ameaça ao valor pessoal, torna-se mais fácil reconhecê-lo, aprender com ele e acolhê-lo.
Na prática clínica, é comum encontrar pessoas cuja relação consigo próprias é marcada pelo criticismo e exigência constantes. Existe, assim, uma tendência para considerar que qualquer falha tem um custo elevado e que o erro é um sinal de inadequação pessoal. Nestes casos, desenvolver uma atitude autocompassiva não significa reduzir padrões ou desistir de objetivos. Significa criar condições para persistir, aprender e recuperar das dificuldades sem recorrer à autopunição como principal estratégia de motivação.
A autocompaixão não diminui o sentido de responsabilidade pelos próprios erros. A diferença está na forma como nos relacionamos com eles: deixa de existir a necessidade de negar a falha, minimizá-la ou justificá-la para proteger a autoestima. Torna-se, assim, possível reconhecer os próprios erros com clareza, precisamente porque já não é necessário adotar uma postura defensiva perante a voz crítica interna.
Cultivar autocompaixão não elimina o sofrimento nem impede o erro, as transforma a forma como nos relacionamos com eles. E, muitas vezes, essa mudança é o que permite continuar a avançar quando a crítica interna nos diria para desistir.




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